A neblina desta manha de domingo é bela, mas não tem a espessura das majestosas neblinas de minha infância.
Parece uma neblina pré fabricada e talvez até o seja, talvez haja uma grande maquina de fazer neblina no tempo certo e quantidade adequada aos padrões américo globais. Mas, e as pessoas simpáticas e falantes que vejo pelas ruas? Serão também elas pré fabricadas para compor a paisagem?
Tudo aqui é muito certo, muito limpo, muito direito. Não há cercas, não ha carros velhos, não ha ferrugem, não ha lixo. Sim. Lixo há. Mas ele some rapidamente quando o colocamos na rua. Misteriosamente, some.
Certa vez vi num filme que o lixo uqe produzimos diz muito sobre quem e como somos. Será que aqui recolhem o lixo para sacar nossos segredos mais íntimos?
A ideia arrepia-me. E já só da vontade de concentrar o pensamento numa frase apenas: ma ma ma ma ma ma ma Maria. (música dos anos 80)
Mas, e se interpretarem isso como um código? E se vierem atrás dos assustados Tico e Teco, meus únicos neurónios resistentes após os choques culturais dos últimos meses.
E quem havia de imaginar um dia que haveria choques mais danosos que os eletricos?
Tempos modernos.
Na curva de uma estrada rumo a New Portland vi uma cerca como as antigas, de arame farpado e tudo, dentro da cerca, e fora do alcance, havia uns barracões muito parecidos com os dos filmes alemães, enormes, achatados, de tijolos escuros e aparentes, altos, com pequenas vidraças apenas no alto. Diria que eram assustadores, mas seria uma infantilidade não permitida a balzaqueanas aventureiras, assim, fechei os olhos apertados e fiquei imovel até o onibus alcançar a próxima curva.
acho que estas linhas nao servem para introduçao de uma tese.....melhor começar de novo...
Ágora
"outro" espaço
Domingo, Novembro 06, 2005
É tão estranho.
Mais uma entre inúmeras vezes vejo-me sentada frente a uma folha branca. Cena já comum nos meus dias de mulher em busca do conhecimento.
Esta madrugada acordei sobressaltada por uma angustia sem explicação. Quase pule ida cama para abrir o computador e buscar informações sobre as revoltas em Paris. Não por fugaz curiosidade, mas por sentir no peito uma dor silenciosa que não encontra válvula de escape. Uma dor que por vezes me faz pensar que vai me por o coração abaixo, ou me forçar a prostrar os joelhos, arcar os ombros e carregar com ela ate o fim.
Uma dor que também não é minha, parece ser de outros, outros todos que não conheço e que não sei que são. Talvez parte deles sejam os jovens galopantes noturnos das frias ruas francesas, incendiários de honras, libertários, jovens quixotescos combando o dragão da rica ignorancia globalizada.
Talvez a sensação de impotência seja tamanha que precise do fogo para expurgar a dor. Talvez?
Cá nesse quarto amadeirado inerte, plantado no centro da nova Inglaterra, com suas gordas lareiras comendo saborosas madeiras, sinto-me frágil ‘esta manha estou tão fragil’
Sonho de olhos abertos com a colina verde azul, refugio de monges e mulheres desesperadas.
E essas linhas banais, só mais algumas linhas banais e nada mais.
E eu que preciso escrever uma tese, fico a esparramar letras vãs em linhas frias, e sobe-me pela garganta um riso cínico e desconfiado: és uma estúpida!
E o que importa? O que realmente importa?
Não sei dizer.
Mas cada vez mais lembro, e me desespero com a ideia de não voltar a ver, as manhas acordadas com os galos cantando, com o barulho tropeço das vacas na estrebaria, o cheiro molhado doce do pasto, o gosto espesso do leite quente útero, e o silencio respeitoso dos pássaros no instante em que o sol se atrasa.
Aquela neblina embranhou-se nas minhas entranhas, flui pelos buracos do meu corpo, despeja-se como cascata pelos meus olhos e não sai da minha cabeça aquela imagem das galinhas ciscando a toa ao redor da casa.
Eu sinto como se estivesse no filme errado.
Ando pelas ruas e as pessoas se metem a me falar numa língua estranha, e eu que não sei falar, vou falando e é como se sempre tivesse feito parte de tudo isso.
E ja não sei de que parte eu sou: daqui ou de lá. E o que significa o ‘lá’. Onde é este lugar?
E nesse momento me lembro do gosto amargo do chimarrão da infância trilhada em vergões vermelhos nas pernas finas.
E lembro
das cruzes tortas nos tecidos xadrezes, pintadas com gotas de sangue desaranjado,
do espatifar da bicicleta contra as ripas da cerca pálida caída, e o riso choro da minha mãe por não saber onde estavam os freios
do porta malas vermelho ferrugem socado de pernas e braços rasgados em gritos indo prum banho de rio vermelhopoeirento,
das roubadas latas de leite moça na pobreza de moças sem leite, e comíamos os doces que nossos suados pais operários imaginavam dar-nos em algum natal distante.
É lindo o que se faz escondido
Estive ausente porque a proximidade do meu aniversário me pôs a nocaute, andei meio perdida olhando passaros azuis, casas vermelhas, terra sangrando, chocolate escorrendo.
andei feliz, bem o digo. e cada dia mais penso e remexo pensando na fala do Zeca
'tudo o que se vê, pra que crer, tudo que se crêe pra que ter,
tudo que se tem...pra quem????'
essa mudança temporaria de ares, antes europeus, ora americanos estao mexendo forte com meus poros, ondas firmes de coisa nenhuma perpassam as ondas menos firmes dos meus cabelos
e...deixa pra lá....é muita bobeira para uma manha apenas.
(cá to sem café, é que as cafeterias vendem cafés de tantos tipos, tamanhos, cores e sabores que me deixaram tonta: comprei um chá de qualquer coisa verde. acho que isso tambem afeta minha escrita)
Terça-feira, Agosto 30, 2005
Alma Nova
Sempre que te vejo assim
Linda nua e um pouco nervosa
Minha velha alma
Cria alma nova
Quer voar pela boca
Quer sair por ai
E eu digo
Calma alma minha
Calminha
Ainda não é hora de partir
Entao ficamos
Minha alma e eu
Olhando o corpo teu
Sem entender
Como é que a alma entra nessa historia
Afinal o amor é tao carnal
Eu bem que tento
Tento entender
Mas a minha alma não quer nem saber
Só quer entrar em voce
Como tantas vezes já me viu fazer
E eu digo
Calma alma minha
Calminha
Voce tem muito o que aprender
* Zeca Baleiro
Bandeira
Eu não quero ver você cuspindo ódio
Eu não quero ver você fumando ópio para sarar a dor
Eu não quero ver você chorar veneno
Não quero beber o teu café pequeno
Eu não quero isso seja lá o que isso for
Eu não quero aquele
Eu Não quero aquilo
Peixe na boca do crocodilo
Braço da Vênus de Milo acenando tchau
Não quero medir a altura do tombo
Nem passar agosto esperando setembro, se bem me lembro
O melhor futuro este hoje escuro
O maior desejo da boca é o beijo
Eu não quero ter o Tejo escorrendo das mãos
Quero a Guanabara, quero o Rio Nilo
Quero tudo, ter estrela, flor, estilo
Tua língua em meu mamilo água e sal
Nada tenho vez em quando tudo
Tudo quero mais ou menos quanto
Vida vida noves fora zero
Quero viver, quero ouvir, quero ver
(Se é assim quero sim, acho que vim pra te ver)
*Zeca Baleiro
Ando Meio Desligado
Ando meio desligado..
Eu nem sinto meus pés no chão
Olho, e não vejo nada
Eu só penso se você me quer
Eu não vejo a hora de lhe dizer
Aquilo tudo que eu decorei
E depois do beijo que eu já sonhei
Você vai sentir
Mas por favor, não me leve a mal
Eu só quero que você me queira
Não leve a mal
Não me leve a mal...
*Pato Fu
Vamos Fazer um Filme
Achei um 3x4 teu e não quis acreditar
Que tinha sido a tanto tempo atrás
Um bom exemplo de bondade e respeito
Do que o verdadeiro amor é capaz
A minha escola não tem personagem
A minha escola tem gente de verdade
Alguém falou do fim-do-mundo,O fim-do-mundo já passou
Vamos começar de novo:Um por todos, todos por um
O sistema é maus, mas minha turma é legal
Viver é foda , morrer é difícil
Te ver é uma necessidade
Vamos fazer um filme
E hoje em dia, como é que se diz: "Eu te amo."?
Sem essa de que: "Estou sozinho."Somos muito mais que isso
Somos pinguim, somos golfinho
Homem, sereia e beija-florLeão, leoa e leão-marinho
Eu preciso e quero ter carinho, liberdade e respeito
Chega de opressão:Quero viver a minha vida em paz
Quero um milhão de amigos
Quero irmãos e irmãs
Deve de ser cisma minha
Mas a única maneira ainda
De imaginar a minha vida
É vê como um musical dos anos trinta
E no meio de um depressão
Te ver e ter beleza e fantasia
E hoje em dia, como é que se diz: "Eu te amo."?
Vamos Fazer um filme
Eu te amo
Eu te amo
Eu te amo
*Legião Urbana
Domingo, Junho 19, 2005
Aihcak Oihcet
Por certo um nome difícil!
Mas não poderia ser outro
Para uma mulher
Como a que agora descrevo
Ela
A Cada vez que vê algo
Pensa nas coisas que ainda não viu
Quando sente um novo sabor
Imagina das coisas que ainda não provou
Essa mulher
Quando ouve uma música
Sente saudade dos sons que há de escutar
E quando dança, mesmo em braços amados,
Embala-se em salões nunca vistos
És assim mulher, agora falo contigo!
Livre
deves continuar
Mas mesmo se afastando
Voe na minha direção.
* Velho Kurek
(Obrigada! aconteça o que acontecer, bebemos um café em alguma estrada da vida)
Segunda-feira, Junho 13, 2005
El siglo vá
Algunos que prefieren aferrarse a lo que queda
hay otros que están hartos porque nunca queda nada
hay muchos que perdieron casi todas las batallas
hay otros por las dudas que hoy esperan en trincheras.
Quizás de vez en cuando se recuerde algún artista
algunos, no tan pocos, hablarán de los fascistas
hay otros que aún sueñan con que vuelva el Ché Guevara
algunos, los de siempre, van perdiendo por goleada
Algunos por amores apostaron hasta el alma
hay otros por vergüenza que hoy esconden sus miradas
hay muchos que dejaron la poesía en cada puerta
hay otros sin tapujos que quemaron sus banderas
Algunos que desean ver jugar a Maradona
hay otros que planean una vida de quimeras
hay muchos por monedas que se tiran a la lona
hay otros aturdidos por el ruido de las botas
Algunos tiran algo porque nunca pasa nada
hay otros aburridos de contar tantas hazañas
hay muchos que perdieron casi todas las batallas
hay otros en silencio que hoy esperan otra guerra
Algunos por amores apostaron hasta el alma
hay otros por vergüenza que hoy esconden sus miradas
hay muchos que dejaron la poesía en cada puerta
hay otros sin tapujos que quemaron sus banderas
El siglo va ... el siglo fue ..
porque el mundo fue y será una porquería ya lo sé.
El siglo va ... el siglo fué ...porque el mundo fué y será una maravilla ya lo sé.
*Lolo Miccuci
ALGO QUE TE MUEVA
Algo que no dije, algo que no era
algo que lo ignores, algo que no veas
algo que acaricie, algo que te duela,
algo que te lleve, algo que te traiga,
algo que te mueva.
Algo que se entregue,
algo que dé guerra algo que te falte,
algo que no sepas algo que te ahogue,
algo que deseas
algo que te baile, algo que te toque,
pero algo que te mueva.
Algo que te aleje, algo que te espera algo que trae suerte,
algo que te quema algo que te abrace,
algo que te llorealgo que te enferme,
algo que te cure,pero algo que te mueva.
Algo que te brille, algo que te llueva
algo que te encierre, algo que abre puertasalgo ya creado,
algo no escuchado algo que te nazca, algo que te mate,
pero algo que te mueva.
Algo de lo mismo, algo de la buena,
algo que te encuentre, algo que te pierda,
algo que te saque, algo que no debas,
algo del fracaso, algo de estas luces
pero algo que te mueva.
*Lolo Miccucci
Domingo, Maio 01, 2005
PS Importantíssimo!!!!!!!!!!
Leêm-se melhor os post's de 1 de Maio ao som de
'Guajira Guantanamera'
(obrigada meu amor, o café está maravilhoso)
Para Sócrates o conhecimento é virtude e ignorância é vício.
Para Aristóteles a razão de ser do ato virtuoso é a felicidade.
Mas o que é a felicidade e como experimentá-la?
Andei por dias loucos, preocupada com diversas coisas e envolta em tantas vidas que me sinto levemente afastada de mim.
É estranho e incrível ao mesmo tempo ' sentir saudades de si própria'? Acredito que sim. é o que sinto.
Ágora retorna!
e com ela um mergulho nas águas refrescantes do eu....uma caminhada na boa companhia da própria sombra......e ao chegar a noite ......
adormecer voltado para dentro...
(cadê minha xávena?, cadê meu café? eu quero tudo de 'novo' e tudo outra vez!)
Sexta-feira, Março 25, 2005
"Quero fazer os poemas das coisas materiais,
pois imagino que esses hão de seros poemas mais espirituais.
E farei os poemas do meu corpo
E do que há de mortal.
Pois acredito que eles me trarão
Os poemas da alma e da imortalidade.
"E à raça humana eu digo:
-Não seja curiosa a respeito de Deus,
pois eu sou curioso sobre todas as coisase não sou curioso a respeito de Deus.
Não há palavra capaz de dizer
Quanto eu me sinto em paz
Perante Deus e a morte.
Escuto e vejo Deus em todos os objetos,
Embora de Deus mesmo eu não entenda
Nem um pouquinho...
Ora, quem acha que um milagre alguma coisa demais?
Por mim, de nada sei que não sejam milagres...
Cada momento de luz ou de treva
É para mim um milagre,
Milagre cada polegada cúbica de espaço,
Cada metro quadrado de superfície
Da terra está cheio de milagres
E cada pedaço do seu interior
Está apinhado de milagres.
O mar é para mim um milagre sem fim:
Os peixes nadando, as pedras,
O movimento das ondas,
Os navios que vão com homens dentro- existirão milagres mais estranhos?"
(Walt Whitmann)
Aos meus amigos ocultos, ou conhecidos, curiosos ou atentos, aos de sempre e aos de passagem, Ofereço-vos, nesta data sensível, uma prenda especial:
www.rubemalves.com.br
O Livro sobre Nada
Com pedaços de mim eu monto um ser atônito.
Tudo que não invento é falso.
Há muitas maneiras sérias de não dizer nada, mas só a poesia é verdadeira.
Não pode haver ausência de boca nas palavras: nenhuma fique desamparada do ser que a revelou.
É mais fácil fazer da tolice um regalo do que da sensatez.
Sempre que desejo contar alguma coisa, não faço nada; mas se não desejo contar nada, faço poesia.
Melhor jeito que achei para me conhecer foi fazendo o contrário.
A inércia é o meu ato principal.
Há histórias tão verdadeiras que às vezes parece que são inventadas.
O artista é um erro da natureza. Beethoven foi um erro perfeito.
A terapia literária consiste em desarrumar a linguagem a ponto que ela expresse nossos mais fundos desejos.
Quero a palavra que sirva na boca dos passarinhos.
Por pudor sou impuro.
Não preciso do fim para chegar.
De tudo haveria de ficar para nós um sentimento longínquo de coisa esquecida na terra — Como um lápis numa península.
Do lugar onde estou já fui embora.
*Manoel Barros
Neste dia de intensas energias transformadoras, 'nada' é o que queria ser, (mas não consigo).
Meu Senhor! encontra-me em meio a este turbilhão de grãos de areia. Sou tua, toma-me.
Terça-feira, Março 08, 2005
Era, erguido do pó,
Inopinadamente
Pra que à vida quente
Da sinergia cósmica desperte,
A ansiedade de um mundo
Doente de ser inerte,
Cansado de estar só!
Repuxavam-me a boca hórridos trismos
E eu sentia, afinal,
Essa angustia alarmante
Própria da alienação raciocinante,
Cheia de ânsias e medos
Com crispações nos dedos
Piores que os paroxismos
Da árvore que a atmosfera ultriz destronca.
*Augusto dos Anjos
A Floresta
Em vão com o mundo da floresta privas!...
- Todas as hermenêuticas sondagens,
Ante o hieróglifo e o enigma das folhagens,
São absolutamente negativas!
Araucárias, traçando arcos de ogivas,
Bracejamento de álamos selvagens,
Como um convite para estranhas viagens,
Tornam todas as almas pensativas!
Há uma força vencida nesse mundo!
Todo o organismo florestal profundo
Porque nunca puderam realizar-se!
*Augusto dos Anjos
